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* ESPECIAL 100 ANOS * PALESTRA ITALIA * PALMEIRAS * (1914-2014) *

 

 

 

DATA: 26.08.14 

 

 

 

 

 

 

VINCIT QUI SE VINCIT

 

(do Latim: "Vence Quem Se Vence")

 

 

 

 

A CRIAÇÃO DO PALESTRA ITÁLIA

 

 

NASCIMENTO: A LIGAÇÃO COM O RIVAL DE TODOS OS TEMPOS (CORINTHIANS),

 

LENDA OU FATO?

 

 

Todos os grandes trabalhos de registro histórico publicados sobre os dois clubes foram consultados, incluindo diversos livros antigos fora de circulação, e publicações especializadas. Atas iniciais do Palestra Itália também foram objeto de pesquisa.

 

O resultado deste trabalho é apresentado de forma resumida nas partes ("páginas") a seguir, registrando apenas os fatos objetivos e fundamentados encontrados nas pesquisas, incluindo a relação de fundadores do Corinthians, cujos nomes foram cruzados com uma lista de 429 nomes de fundadores, conselheiros e sócios dos 6 primeiros anos do Palestra Itália, sem que fosse encontrado qualquer nome em comum.

 

O que temos aqui é um retrato verdadeiro aos fatos históricos, que fica à disposição de qualquer registro novo, que possa ser trazido à luz por algum historiador dos dois clubes, mas que diante do esgotamento das fontes de pesquisa se torna a versão real da fundação do Palestra Itália, difundida pela Academia de História do Palestra-Palmeiras.

 

 

 


 

 

Corinthians - Fundação e Origens     [ Data de fundação: 01/09/1910 ]

 

 

Em 1910, operários do bairro de Bom Retiro, praticavam o futebol em clubes da várzea local. Uma destas equipes, o Botafogo, acabou sendo extinto por determinação policial, motivada pelas constantes brigas em que se envolvia.

 

Entre os ex-jogadores do Botafogo, encontravam-se os jovens que se tornariam fundadores do Corinthians. Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Rafael Perrone, Anselmo Correia e Carlos Silva, que no dia 01/09/1910 esperavam o bonde para voltar para casa, na antiga rua dos Imigrantes (atual rua José Paulino, no centro de São Paulo), quando, sob a luz de um poste de iluminação a gás, tomaram a decisão de fundar o novo clube.

 

Após reuniões realizadas no salão do barbeiro Miguel Bataglia [futuro presidente do Corinthians], Joaquim Ambrósio sugeriu o nome de Corinthians, inspirado na excursão semanas antes do Corinthian Casuals da Inglaterra, com ótima performance em campos paulistanos. Outras sugestões de nome, como Santos Dumont e Carlos Gomes, participaram da votação que definiu Corinthians como o nome oficial.

 

Os destaques que marcam a fundação do Corinthians são:

 

a) O objetivo inicial era a criação de uma nova equipe de futebol, para continuar atuando na várzea paulistana [até porque era sabido por todos que a Liga da elite tinha enorme preconceito de equipes populares da várzea].

 

b) A característica comum que reuniu os fundadores e atraiu os primeiros simpatizantes, era serem operários da região do Bom Retiro, notadamente da "São Paulo Railway". A origem étnica não era o referencial, mas sim a classe social [trabalhadores] e a região de origem [Bom Retiro], havendo espanhóis, portugueses, italianos e até mesmo ingleses entre os fundadores e pioneiros, entre eles:

 

 Ambrósio, Joaquim

 Bataglia, Miguel

 Bataglia, Salvador

 Campbell, Jorge

 Correia, Anselmo

 Desiderio, Afonso

 Lopomo, Salvador

 Lotito, Emilio

 Magnani, Alexandre

 Nunes, Antonio Alves

 Pereira, Antônio

 Perrone, Rafael

 Silva, Carlos

 Silva, João da

 Teixeira, Alfredo

 Valente, Felipe

 


 

 

S.S. Palestra Italia

 

Data de Fundação26/08/1914

 

ORIGENS

 

Em 1914 a cidade de São Paulo possuía pouco mais de 450 mil habitantes, sendo que 25% de sua população era de italianos e descendentes, o que fazia da capital paulista uma cidade quase italiana, como bem observou a escritora italiana Gina Lombroso, em sua visita à São Paulo poucos anos antes. "Ouve-se mais o idioma de Dante que o de Camões nas ruas de São Paulo", afirmava.

 

Com a presença tão maciça e importante do elemento italiano na capital, muitos peninsulares viraram destaque nas mais diversas atividades comerciais, empresariais, literárias e culturais. A imensa colônia italiana até possuía um clube esportivo, o Esperia, porém nele não se praticava o futebol, já que seu carro chefe era o remo. Havia também vários outros pequenos clubes italianos na cidade, mas eram todos "varzeanos", clubes de operários que praticavam o futebol pelos campos disponíveis nas redondezas urbanas. Nas ligas da elite paulistana desfilavam apenas equipes representantes dos ingleses [como o Mackenzie], escoceses [Scottish Wanderers], alemães [Germânia] e da burguesia da cidade [como Paulistano e São Bento].

 

Neste ano, a primeira visita de equipes italianas ao Brasil, [simultaneamente a Pro-Vercelli e o Torino], mobilizaram a colônia, que se encheu de orgulho ao ver os campeões italianos enfrentarem imponentemente as equipes da elite paulista.

 

É neste contexto que uma fagulha fomentou a criação de uma equipe que pudesse representar toda a colônia na cidade de São Paulo, um clube que reunisse os vários atletas de origem italiana, espalhados por clubes da cidade, montando uma equipe competitiva capaz de brigar por títulos contra as grandes equipes da elite.

 

Luigi Cervo, jovem funcionário administrativo das Indústrias Matarazzo [subordinado do Cav. Ernesto Giuliano, pai do Paschoal Giuliano], jogava futebol pelo S.C.Internacional da capital, e foi o principal idealizador. Após reunir vários amigos em torno da idéia, convenceu outro jovem, Vicente Ragognetti, jornalista, poeta e escritor, a se envolver. Anos depois Ragognetti forneceu um depoimento que retrata este momento da gênese palestrina:

 

"...mandei uma cartinha ao Fanfulla atacando, sempre tive e tenho a mania de atacar alguém, a colônia italiana de S.Paulo então numerosa e barulhenta, pela sua negligencia em não fundar um time de futebol... no dia seguinte o Luigi Cervo, empregado de categoria das Industrias Matarazzo respondia aceitando a proposta. Liderando um grupo de seus colegas de trabalho, e convocava uma reunião para a fundação..."

 

Em outro depoimento, desta vez de Luigi Cervo para Walter Pellegrini, então historiador oficial do clube, a história continua:

 

"...Eu e meus colegas funcionários da Casa Matarazzo fazíamos parte da Sociedade Recreativa e Dramática Bela Estrela, onde reuníamos as nossas famílias para eventos lítero-musicais e também para as danças que, naquela época, eram consideradas como novo gênero de esporte. No entanto, as visitas à nossa capital das equipes de futebol da Pro-Vercelli e Torino, que aqui realizaram onze partidas, repercutiam em todas as classes, provocando, como era natural, o sentimento patriótico da colônia com momentos de empolgação e de entusiasmo transbordante."

 

 

A seguir, as transcrições (do italiano para o português) das duas publicações históricas feitas no Fanfulla, jornal representativo da colônia italiana:

 

 

14/08/1914 - Carta de Vicente Ragognetti publicada no Fanfulla

 

 

 

Carta original. O antigo e "descuidado" autor dos rabiscos à caneta no impresso é desconhecido

(FOTO: ARQUIVO FANFULLA) 

 

 

 

Seção "Gli Sports"

 

[ * adaptação do Editor * ]

 

PELA FORMAÇÃO DE UMA EQUIPE ITALIANA DE FUTEBOL EM SÃO PAULO

 

São Paulo, 13 de Agosto de 1914

Egrégio Sr. Diretor do "Fanfulla"

 

" Prezado senhor, uma palavra apenas e, para esta, um cantinho no vosso jornal. Eis do que se trata:

Alguns conhecidos futebolistas italianos, mas associados a clubes brasileiros, encarregaram-me de escrever-vos acerca de um projeto por eles comentando entre dois goles de café, fazendo-me então compreender a esperança de que tal projeto o vosso jornal se torne portador e propagandista.

 

Nós temos em São Paulo - afirmam os referidos esportistas - o clube dos alemães, dos ingleses, dos portugueses, dos internacionais, e mesmo dos católicos e dos protestantes. Porém, um clube que seja exclusivamente de 'sportmen' italianos (mesmo nossa Colônia aqui sendo grandiosa), ainda não há e nem sequer tentou-se realizar. Futebolistas italianos que jogam bem em São Paulo, existem. Por que, de comum acordo, não reunimos os referidos senhores e, assim como temos associações de remo, filo-dramáticas, mundanas, patrióticas, etc., podemos também ter um clube de futebol italiano, não?

 

Aqui fica a proposta dos futebolistas italianos, e com V.S., Sr. Diretor, o comentário.

 

Sem mais, Vicente Ragognetti. "

 

 

 

19/08/1914 - Anúncio publicado no Fanfulla por Luigi Cervo e amigos

 

Página 5  -  Seção "Gli Sports"

 

" Palestra Itália. Foi organizada uma diretoria provisória para a formação de uma sociedade que está denominada Palestra Itália. A Sociedade compreenderá, também, a seção filo-dramática e dançante, além de uma seção esportiva, objetivando a organização de um time puramente italiano, para jogos de foot-ball. Os aderentes, que até o momento se compõem de estudantes e empregados no comércio, reunir-se-ão hoje às 20 horas, no Salão Alhambra, sito à Rua Marechal Deodoro nº 2, com o fim de eleger a diretoria provisória e para completa formação da Sociedade.

 

Todos os quais desejarem participar da criação de um clube italiano de 'calcio' (futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua Marechal Deodoro, Salão Alhambra, para a reunião de fundação do Palestra Itália. "

 

 

 

A primeira reunião, na quarta-feira 19/08/1914 contou com 37 presenças, e ficou marcada por muita discussão em torno do objetivo primordial do novo clube. Parte dos que estavam presentes queria um clube voltado a atividades artísticas e literárias, enquanto que a maioria queria um clube focado no futebol. Assim, Luigi Cervo e os amigos marcaram nova reunião para a quarta-feira da semana seguinte, 26/08/1914, que acabou ficando formalizada como a data de fundação do clube.

 

 

Entre os 46 presentes, fundadores do Palestra Itália, absolutamente nenhum fazia parte ou foi membro do clube Corinthians. Eram em sua grande maioria moradores do Brás e funcionários das Indústiras Matarazzo, entre eles:

 

 

 

 Cervo, Luigi [eleito Secretário-Geral]

 Marzo, Luigi Emmanuelle [eleito Vice-Presidente]

 Ragognetti, Vicente [eleito Diretor Esportivo]

 Simone, Ezequiel [eleito 1º Presidente]

 

 Aulicino, Antonio [eleito vice-secretário]

 Cileno, Francesco Vicenzo [inspetor de sala]

 Giangrande, Oreste [eleito revisor de contas]

 Giannetti, Guido [eleito revisor de contas]

 Morelli, Francesco [eleito 2º mestre de sala]

 Nipote, Francisco De Vivo [eleito tesoureiro]

 Rebucci, Armando [eleito revisor de contas]

 Silva, Alvaro F. da [eleito 1º mestre de sala]

 

 Azevedo, Alfonso de

 Betti, Delfo

 Bucciarelli, Amadeo

 Camargo, Francesco

 Ciello, Michele A.

 Del Ciello, Clementino

 Ferré, Fábio

 Gallo, Eugenio

 Gallucci, Antonio

 Giannetti, Giorgio

 Giannetti, Giulio

 Izzo, Adolfo

 Izzo, Alfredo

 Izzo, Luigi

 Lamacchia, Giovanni

 Lilla, Onofrio

 Maninni, Battista

 Médici, Luigi

 Migliori, Alfredo

 Mosca, Alfonso

 Nigro, Giuseppe

 Pareto, Leonardo

 Prince, Giuseppe

 Rizzo, Vicenzo

 Rosario, Luigi M. F.

 Romano Filho, Gennaro

 Romano, Oreste

 Rossi, Giovanni

 Russo, Ercole

 Tavollaro, Michele

 Vaccari, Aughusto

 

 

 


 

+  fotos de antigos registros impressos do século XX no jornal FANFULLA

 

[ARQUIVO FANFULLA]

 

 

NOTAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO DO CLUBE PALESTRA ITALIA (PALMEIRAS):

 

 

EDIÇÃO DE 28.08.1914

 

 

 

EDIÇÃO DE 27.08.1914

 

 

 

 

 

ALGUMAS PUBLICAÇÕES SOBRE A FORMAÇÃO DE "OUTROS" CLUBES ITALIANOS: 

 

 

EDIÇÃO DE 30.08.1914

 

 

 

EDIÇÃO DE 30.08.1914

 

 

 

 

EDIÇÃO DE 26.08.1914

 

 

 

 

EDIÇÃO DE 21.08.1914

 

 

EDIÇÃO DE 21.08.1914

 

 


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Como vimos, a fundação do Palestra Itália aconteceu no Salão Alhambra, situado à rua Marechal Deodoro, n°2.

 

Durante muitos anos várias publicações afirmaram que a rua Marechal Deodoro fora extinta devido à reurbanização da cidade. Porém, esta é uma meia verdade.

 

Fazendo uma volta de cem anos no tempo, veremos que a Praça da Sé não era como nós a conhecemos hoje, principalmente porque a catedral ainda não existia.

 

No formato antigo da praça, a igreja da Sé situava-se mais para baixo de onde está a atual catedral. A antiga igreja ficava mais ou menos onde hoje se encontra a entrada da estação do Metrô Sé e ao seu lado existia mais uma igreja - a de São Pedro dos Cléricos.

 

Atrás da igreja da Sé funcionava um estacionamento para carruagens (na época também chamados de Tílburis), e pequenas casas comerciais, além de existirem as ruas Santa Tereza, Capitão Salomão, e as travessas Esperança e do Quartel.

 

A rua Marechal Deodoro circundava toda essa região pelo lado direito de quem vê, hoje, a Catedral da Sé de frente. Fazendo esquina com as ruas Direita, Barão de Paranapiacaba, Benjamin Constant e Senador Feijó.

 

 

 

 

 

 

 

A primeira grande mudança no aspecto da Praça da Sé (à época também chamado de Largo da Sé) aconteceu em 1911, após o acordo entre a Cúria paulistana e a prefeitura, que cedeu a parte de cima do largo, à época chamado de Largo do Teatro, onde funcionou o primeiro Teatro São José.

 

Alguns anos antes, o famoso Teatro São José foi quase inteiramente destruído por um incêndio, com isso, a prefeitura mandou demolir o teatro e dividiu a região, o que fez nascer à atual Praça João Mendes. Com o restante do espaço cedido à Cúria, os líderes da Arquidiocese paulistana resolveram demolir a igreja da Sé e a igreja de São Pedro dos Cléricos para construírem a atual Catedral da Sé e toda a região passou por uma reurbanização em um trabalho conjunto com a prefeitura de São Paulo.

 

A rua Marechal Deodoro, como já dissemos, situava-se ao lado direito de quem está em frente à Catedral da Sé. Esta rua ainda existe, e serve para contornar a praça, além de ser caminho de vários ônibus, inclusive elétricos. Porém, a rua, hoje em dia, não possui mais o nome de Marechal Deodoro, ficando simplesmente com o nome de Praça da Sé.

 

E era na esquina entre as ruas Marechal Deodoro e Direita, em frente que funcionava o Salão Alhambra. O salão ficava no segundo andar do Edifício Baruel, uma das mais importantes e lindas edificações do centro de São Paulo no início do século.

 

Construído em 1896, pelo senhor Francisco Nicolau Baruel, em obra realizada pelos empreiteiros italianos Claudio Brenni e Dominiziano Rossi - profissionais que trabalhavam também para o arquiteto Ramos de Azevedo, e participaram da construção do Teatro Municipal - o Edifício Baruel funcionava na esquina da rua Direita com a Marechal Deodoro, bem em frente com a Praça da Sé.

 

De acordo com Marisa Midori Deacto, no livro "Comércio e Vida Urbana na cidade de São Paulo", o Edifício Baruel era um "soberbo edifício, bem no coração da cidade, situado no melhor ponto do triangulo da Paulicéia, de fronte ao tradicional Largo da Sé". No edifício, que possuía dois andares, funcionava no seu andar térreo, com entrada pelo número 1 da rua Direita, a Drogaria Baruel que trabalhava com importação, fabricação e comércio de produtos químicos e farmacêuticos.

 

 

 

 

 

 

 

Sua fábrica ficava na rua da Cantareira, n° 42, e o depósito ficava na parte do edifício voltado para a Praça da Sé, com entrada pela rua Marechal Deodoro.

 

Nos dois andares acima, existiam salas comerciais que o senhor Francisco Nicolau Baruel (que chegou a ser vereador em São Paulo, e faleceu em 1928) alugava para médicos, advogados e pequenos comerciantes, além de um salão para eventos, que fora batizado de Salão Alhambra.

 

Uma das características que mais chamava a atenção no Edifício Baruel era sua cúpula, arredondada, que trazia um aspecto praticamente europeu para o centro da cidade de São Paulo.

 

O Salão Alhambra ficava na ponta do segundo andar, e era constantemente alugado para reuniões de partidos políticos, reuniões de sindicatos e também para grupos teatrais.

 

Para se chegar ao salão era necessário entrar pela porta que funcionava como o n° 2 da rua Marechal Deodoro e subir as escadas até o segundo andar.

 

Como o edifício ficava na esquina da rua Direita com a Praça da Sé, tornava-se um local de fácil acesso, principalmente porque muitos dos fundadores do Palestra Itália trabalhavam no escritório administrativo das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, que ficava bem no meio da rua Direita. Além disso, outros dos fundadores eram pequenos comerciantes no centro da cidade.

 

Com novas reurbanizações na Praça da Sé ao longo dos anos, a rua Marechal Deodoro teve seu nome modificado para Praça da Sé, e o Edifício Baruel, infelizmente, fora demolido em 1965, levando consigo o Salão Alhambra.

 

Atualmente a Baruel é mais conhecida pelo talco para pés "Tenys Pé Baruel", porém a empresa não pertence mais à tradicional família, tendo sido vendida para outros proprietários.

 

Já na Praça da Sé, no local onde existia o Edifício Baruel, hoje funciona a conhecida loja "Nelson das Bolsas".

 

 

 

 

 

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Uma demonstração clara da diferença da concepção do Palestra Itália desde a sua fundação, em relação aos demais clubes italianos da cidade, e das grandes ambições desde sua origem, é justamente o Baile de apresentação do clube para a sociedade paulistana, realizado em Janeiro de 1915, antes mesmo de sua primeira partida. Um evento luxuosíssimo, no Salão Nobre do Clube Germânia, com decoração especial, coquetel, jantar completo e baile sob o comando de uma grande orquestra. O baile contou ainda com a presença de diversas personalidades paulistanas, todos os expoentes da colônia, com destaque para o Consul Geral, Comendador Pietro Barolli.

 

Os preparativos, a organização e os convites geraram frutos antes mesmo do Baile, já que uma semana antes, a APSA, liga de elite do futebol paulista, anunciava oficialmente o ingresso do Palestra Itália como filiado da entidade.

 

Como pode ser visto e afirmado com absoluta clareza, os dois clubes jamais possuíram qualquer vínculo nas origens, muito menos a "versão" completamente infundada de uma cisão no Corinthians que pudesse ter ligação com as origens do Palestra Itália. Não há nem mesmo registro de cisão na história do Corinthians, nos idos de 1914.

 

Qual o motivo então para o surgimento desta versão, além da simples ignorância e desconhecimento da história dos dois clubes ?

 

A suspeita recai sobre um fato paralelo, que em nada tem a ver com a fundação:

 

Corinthians, foi fundado em 1910 e passou a fazer jogos na várzea paulistana. Somente em 1913 conseguiu sua inscrição para a recém-criada LPF, liga paralela que reunia clubes de menor expressão, impedidos de participar da APSA comandada pelo Paulistano.

 

Em 1914 o Corinthians conquistou o torneio da LPF, e com este cacife procurou a APSA em 1915, obtendo o sinal positivo para sua filiação na liga da elite. Desta forma, formalizou seu desligamento da LPF, abrindo mão do torneio. Para sua surpresa, a APSA aceitou a filiação, mas não inscreveu o Corinthians no torneio de 1915. Não aceitando a situação, pediram o desligamento da APSA e retornaram para a LPF, mas o torneio já havia sido iniciado. Assim o Corinthians ficou fora de qualquer torneio em 1915, liberando seus jogadores. Neco, Casemiro, Gonzales e Bianco disputaram o Paulista daquele ano pelo Mackenzie, Pollice pelo Wanderers, e Bororó, Aparício, Fulvio, Peres e Amilcar, pelo Ypiranga. Simultaneamente os jogadores se reuniam para amistosos com a camisa do Corinthians.

 

Em paralelo, ocorre que o Palestra Itália passa a atrair jogadores italianos de todas as equipes, obtendo a adesão de vários expoentes, incluindo o goleiro Stillitano e o ponta Dante Vescovini, ambos do poderoso Paulistano, Olivieri que jogava junto com Luigi Cervo no S.C.Internacional, Flosi do Lusitano, Di Lascio, Cestari, Grimaldi e Severini do Campos Elyseos, Bertolini de Jundiaí, Picagli do Ruggerone, e até do Corinthians, alguns jogadores como Fulvio, Police e Amilcar acabam participando do primeiro amistoso.

 

Quanto à Bianco Spartacco Gambini, muitas vezes citado, na verdade o craque após morar na Argentina, tornando-se inclusive campeão da segunda divisão daquele País em 1912, aos 19 anos de idade, retornou ao Brasil e foi convidado a atuar pelo Corinthians reforçando a equipe em 1914, mas assim que tomou conhecimento da fundação do Palestra Itália, ele e toda a família Gambini se integraram ao novo clube. Seu pai tornou-se um dos primeiros dirigentes do clube, e seu irmão também atuou no segundo quadro. Em 1915 Bianco atuou no campeonato paulista pelo Mackenzie, chegou à seleção da APSA e já em 1916 integrou-se ao Palestra Itália para seu primeiro campeonato oficial, tornando-se um dos maiores ídolos da história do clube, onde permaneceu por longuíssimos 17 anos, conquistando vários torneios.

 

 

 

DEPOIMENTOS

 

"Eles decidiram fundar o Palestra Itália, pois não havia um grande clube da colônia italiana em São Paulo naquela época. O Palestra nasceu na Matarazzo, fruto de uma iniciativa de parte de seus funcionários. Não tem nada a ver essa história de que o Palestra é dissidência do Corinthians, não sei de onde tiraram isso. Nunca teve nada a ver com o Corinthians. Foi uma iniciativa de papai e seus colegas que tomou corpo e virou realidade. É muito claro isso: o Palestra nasceu na Matarazzo e quando os italianos vieram excursionar em São Paulo [nota: o Torino e a Pro-Vercelli, em 1914] a idéia de fundar o clube finalmente foi posta em prática."

 

Depoimento dado em 18/07/2009 por Dona Etelvina Cervo, filha do fundador do Palestra Itália, Luigi Cervo

 

 

"Definitivamente, de minha parte, não há dúvida: o Palestra não é uma dissidência direta do Corinthians.

Entre seus primeiros participantes havia, sim, gente que em algum momento fez parte do Corinthians, notadamente nosso herói em comum Bianco Spartaco Gambini, campeão paulista de 1914 pelo Corinthians e depois ídolo palestrino durante décadas. Nada mais normal: afinal, antes da fundação de um clube da colônia italiana, quem agregava esses representantes era o próprio Corinthians, de resto um reduto também de espanhóis, portugueses, sírios... Não se trata, porém, de uma dissidência direta, como no caso da criação do departamento de futebol do Flamengo pelos ex-jogadores do Fluminense, por exemplo."

 

Depoimento dado via e-mail em 17/04/2007 por Celso Unzelte, jornalista e historiador,

autor do "Almanaque do Timão" e "Almanaque do Palmeiras", entre outros

 

 

 

DÚVIDAS / ESCLARECIMENTOS / INFOS:  academia.do.palestra@terra.com.br

 

Julio Cezar Ragazzi  ( Jornalista / Historiador / Pesquisador )  -  jcragazzi77@gmail.com

 

 

FONTES / CONTEÚDO:

* A ACADEMIA DE HISTÓRIA DO PALESTRA-PALMEIRAS

* SALÃO ALHAMBRA - O LOCAL DA FUNDAÇÃO DO PALESTRA ITALIA (por Julio Ragazzi)

EDIÇÃO: FANFULLA

 

 


 

 

Rua em frente à sede do Palestra-Palmeiras é fechada para que torcedores comemorem a data do centenário
já a partir da véspera do aniversário de fundação do clube, dia 25/08/2014 
 
( Foto: Felipe Zito  -  globoesporte.globo.com )
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O FANFULLA AO LONGO DE SEUS 118 ANOS

 

 

Matéria publicada na edição impressa de 02.03.2012 do jornal Fanfulla

 

 

Foto: Cidinha Crisi

 

 

     A fotografia mostra uma página emoldurada de um exemplar do Fanfulla que se encontra no salão principal do Círculo Ítalo Brasileiro de Itapira, cidade do interior do estado de São Paulo. Trata-se da primeira página de um número lançado especialmente para comemorar a assinatura do Tratado de Letrão, em 11 de fevereiro de 1929, que pôs fim a quase 60 anos de conflito entre o Governo Italiano e a Igreja Católica.  

     Embaixo à esquerda encontra-se o retrato do Rei da Itália, Vítor Manuel III; à direita o do Papa Pio XI e acima o do Primeiro Ministro italiano da época.

     É possível que as jovens gerações, para as quais escrevo minhas crônicas em Português a pedido de Leonardo Dellarole, não saibam exatamente o que foi o tratado de Letrão. Vou então explicar-lhes. 

     Em 20 de setembro de 1870 as tropas italianas invadiram a cidade de Roma, que até esse momento, e durante séculos, estivera sob o domínio dos Papas como capital do Estado da Igreja, que compreendia as atuais regiões do Lácio, Úmbria, Marcas e parte de Emília Romanha. Fazia anos que Vítor Manuel II, então Rei da Itália, esperava essa ocasião para declarar Roma capital da Itália recém unificada. Lembrem que Itália, como nação soberana e independente, nasceu só em 1861, com Turim como capital, e é por isso que no ano passado se celebraram os 150 anos da unificação.

     O Papa Pio IX tinha dado ordem a suas tropas de opor uma resistência apenas simbólica, sem mortos nem  feridos, só o suficiente para caracterizar que a invasão tinha sido violenta. A resistência, entretanto, não foi só simbólica e houve dezenas de mortos de ambas as partes.

     Inconformado com a invasão, o Papa se fechou no Vaticano, declarando-se “prisioneiro do Governo Italiano”. Na realidade, ninguém fez o Papa prisioneiro nem lhe proibia de ir aonde quisesse, mas ele tomou essa atitude para mostrar publicamente seu protesto pelo que considerava uma usurpação. Dessa maneira, deixou desocupada sua residência oficial, o Palácio do Quirinal, o que foi aproveitado por Vítor Manuel II para tomar posse do mesmo como residência da Família Real Italiana. Atualmente, com o fim da Monarquia, o Palácio é a residência do Presidente da República.         

     O protesto do Papa não se limitou a isso. Ele deu ordem aos católicos de se abster de participar na política italiana, proibindo-os de votar, de ser eleitos e de ocupar cargos públicos. O voto na Itália não era (e continua não sendo) obrigatório, mas optativo. Quem não vota não recebe sanções.

     Porém, nem todos os católicos aceitaram de bom grau esta proibição. A voz contrária mais influente foi a de Monsenhor Giovanni Battista Scalabrini, bispo de Piacenza, grande católico e grande italiano, que disse que se os católicos não podiam fazer ouvir sua voz no Parlamento, não se queixassem depois da aprovação de leis contrárias aos desejos da Igreja. Uma destas leis foi, por exemplo, a criação do Ufficio di Stato Civile (Registro Civil) onde a população deveria registrar os nascimentos, casamentos e decessos, função esta que até então era privativa das paróquias (Vide Nota 1 ao final).   

     O Papa irritou-se com a atitude de Monsenhor Scalabrini e o ameaçou com punições disciplinarias se não calasse a boca. Scalabrini, filho obediente da Igreja, calou-se. Ele foi o fundador da Congregação dos Missionários de São Carlos, à qual pertence o capelão da colônia italiana, o padre Giorgio Cunial, cuja missão é  dar atenção espiritual aos emigrantes italianos espalhados pelo mundo.

     O conflito, que foi chamado de “questão Romana”, se prolongou por décadas, até que em outubro de 1922 o rei Vítor Manuel III, neto de Vítor Manuel II, nomeou um Primeiro Ministro que tinha entre suas prioridades a solução do impasse. As negociações, longas e complicadas, finalizaram com sucesso em 11 de fevereiro de 1929 com a publicação do Tratado de Letrão, assim chamado porque foi firmado na Basílica de São João de Letrão em Roma. Foram seus assinantes o Primeiro Ministro italiano, em representação do Rei, e o Cardeal Gasparri em representação de Pio XI, Papa da Igreja nesses dias.

     Em virtude do Tratado, a Igreja Católica recebeu uma indenização em dinheiro que até hoje não se sabe de quanto foi (Vide Nota 2 ao final) e a Itália reconheceu como nação soberana e independente o Estado da Cidade do Vaticano, uma área de 44 hectares no centro de Roma, que inclui a Basílica de São Pedro, os museus, os jardins, as residências e os prédios onde funciona a administração da Igreja. Faz parte também do Estado o palácio de Castelgandolfo, fora de Roma, onde o Papa costuma passar férias.

     O Estado da Cidade do Vaticano foi logo reconhecido como nação livre e soberana pelos países de maioria católica, Brasil entre eles. Os países de maioria protestante, como Estados Unidos, demoraram mais tempo, mas finalmente acabaram aceitando sua existência e hoje têm embaixadores na Santa Sé. O último país que o reconheceu foi o Estado de Israel.

     O Tratado de Letrão teve grande repercussão na Itália da época. Finalmente acabava o longo conflito que parecia não ter solução e que não fora bom para nenhuma das partes envolvidas. Teve repercussão também no Brasil, tanta que o Fanfulla lhe dedicou um número especial, do qual o Círculo Ítalo Brasileiro de Itapira conserva, como uma relíquia valiosa, a primeira página. Segundo o Presidente do Círculo, Sr. Walter Ricciluca, Cavalheiro da República Italiana, não se vende por dinheiro nenhum enquanto ele estiver vivo. 

 

Texto: Giovanni S. Crisi

 

     Nota 1. Os jovens brasileiros que aspiram à cidadania italiana alegando que o tataravô foi italiano (e quem escreve conhece vários), saberão agora um dos motivos da grande demora do processo. Na imensa maioria dos casos, os jovens não sabem nem onde e nem quando nasceu o tataravô. Na melhor hipótese, só sabem o nome. Começa então um demorado levantamento em todos os Uffici di Stato Civile (Registros Civis) da Itália, para ver se em tal época aproximada está registrado o nascimento do tal tataravô.

     Se não está, é possível que o tataravô tenha nascido antes de 1870, em cujo caso o nascimento foi registrado na paróquia do lugar. Será necessário então pesquisar os registros de todas as paróquias italianas. Aqui damos de cara com um problema. Os funcionários dos Registros Civis poderão não gostar da tarefa que lhes espera (em minha opinião, não gostam mesmo), mas são funcionários do Governo e têm a obrigação de realizá-la. Os párocos, pelo contrário, não são funcionários do Governo e se não a realizam ninguém pode obrigá-los. Tudo depende, nesses casos, da boa vontade dos vigários. 

     Nota 2. O Governo italiano da época era um governo ditatorial e não quis que o povo soubesse quanto tinha custado para o país a pacificação com a Igreja Católica. A quantia paga permaneceu secreta. A Igreja, por seu lado, teve bom cuidado de não dizer quanto dinheiro tinha recebido. 

 


 

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